quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Silencio absoluto

"O silêncio absoluto"

Venho falar-vos de um acontecimento que me marcou imenso, no percurso da minha vida.

Numa noite calma e serena, e a bater as 02h00 da madrugada, a campainha interna do corpo de bombeiros, onde passo a maior parte do meu tempo, soou duas vezes e foi anunciado nas colunas de som internas do quartel: "Acidente de viação com multi-vítimas encarceradas".

Àquele toque, as guarnições de bombeiros equipam-se e deslocam-se para as viaturas estipuladas para este tipo de emergência. Foi ao som das sirenes que nos deslocamos para o local anunciado.

Durante o percurso, no interior da viatura, fui delineando as tarefas a executar e distribuindo-as pelos vários operacionais. Ao aproximarmo-nos do local do acidente, deparei-me com um cenário de terror: um silêncio absoluto, o que, normalmente, não acontece... Ao efectuar um breve reconhecimento da situação, constatei que nas duas viaturas sinistradas não havia sobreviventes. Três jovens estavam numa viatura, completamente irreconhecível, e, na outra, uma jovem, com uma senhora no banco de trás, todos sem vida.

Mas não era tudo: também no banco traseiro, reparei numa cadeira de transporte de crianças e, de imediato, levantei o corpo da senhora e deparei com o de um bebé de 18 meses de vida, já sem vida.

A nós, bombeiros, só nos restava retirar os corpos das vítimas do interior das viaturas, o que viria a tornar-se bastante difícil devido ao estado em que os automóveis se encontravam.

Falei com a equipa e pusemos mãos ao trabalho definido.

As pessoas que circulavam naquela via, nos dois sentidos, não se aproximavam do local. Percebia-se, à distância, que a situação era bastante grave e dolorosa. Notava-se também na expressão dos bombeiros o ar de desalento e perturbação, houve bombeiros que não conseguiram reagir e que se afastaram do local de acção. Fiquei eu com outro colega, que também se encontrava bastante perturbado. Ele parecia um robot, é a descrição mais adequada que me ocorre.

Depois de duas horas de sofrimento, regressou-se ao quartel. O equipamento foi limpo e as viaturas arrumadas, num silêncio total.

Depois, verifiquei que era preciso falarmos do sucedido, que todos precisávamos de desabafar. E, reunindo todo o pessoal, conseguiu-se melhorar o estado psicológico de todos.

Agora, a esta distância de um acontecimento marcante na minha história de vida pessoal e profissional, verifico que me permitiu tirar conclusões positivas e negativas.

Das positivas, concluí que é necessário as equipas de socorro serem confrontadas com situações bastante críticas, para que se consiga perceber quem realmente avança ou recua.

Concluí também que consigo manter a calma, mesmo em situações de stress, e que isso transmite alguma segurança à equipa operacional. É certo que as memórias ficam gravadas, mas não noto perturbação devido às situações problemáticas por que já passei, como esta que aqui descrevi sucintamente e que me marcou profundamente.

De entre as conclusões negativas, verifiquei que não existe pior situação para os bombeiros do que sentirmo-nos impotentes, inúteis e sem margem de manobra para fazer aquilo para que estamos vocacionados: "ajudar o próximo".

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